10

Saudades de São Paulo

Posted on Posted in Uncategorized

“Se no título desse livro apliquei o termo saudade, não foi por lamento de não estar mais lá. De nada me serviria lamentar o que após tantos anos não reencontraria. Eu evocava antes aquele aperto no coração que sentimos quando, ao relembrar ou rever certos lugares, somos penetrados pela evidência de que não há nada no mundo de permanente nem de estável em que possamos nos apoiar.” Lévi-Strauss

Lévi-Strauss chegou ao Brasil em dia de carnaval. Na mesma noite saiu por São Paulo, em um bairro popular, para explorar a cidade. Ouviu uma “música tonitruante” e jovens negras dançando. Um guarda se aproximou e disse que não poderia ficar apenas olhando. Então, mesmo sem a menor habilidade resolveu dançar, causando incômodo às jovens que aceitavam sua parceria de dança numa total indiferença.

Seu interesse pelas cidades e pelos lugares se deu por intermédio do estruturalismo e seus ilustres predecessores. Segundo Lévi-Strauss:

“Com eles aprendi a traçar a diferença entre o espaço do geômetra, continuo, homogêneo em todas as suas partes, e o espaço social no qual, consciente ou inconscientemente, cada grupo humano imprime uma estrutura, no qual distingue regiões e orientações dotadas de qualidades próprias que refletem o sistema de valores do grupo e sua organização. Ora, a cidade é primeiramente um espaço, talvez indiferenciado antes que homens o ocupem; mas a maneira como, ao longo dos séculos ou anos, eles escolhem se distribuir nesse espaço, a maneira como as diversas formas de atividades política, social, econônica se inscrevem no terreno, nada disso se faz ao acaso, e é apaixonante investigar se as cidades se diferenciam em tipos e se é possível discernir constantes em sua estrutura e seu desenvolvimento.”(LÉVI-STRAUSS, 1996, p.13)

Contemporâneo a Lévi-Strauss, Adoniran Barbosa foi outro nobre cidadão apaixonado por São Paulo, seus lugares, seu povo e seu samba. Gostava de percorrer a cidade com longos passeios a pé e dessa forma conseguia captar o espírito da cidade e de seus habitantes. E além, conseguia traduzir esse espírito paulistano na letra de seus sambas de raíz.

Adoniran compôs essencialmente sambas urbanos, de partido alto. Italiano anarquista nascido no interior, começou a trabalhar ainda criança na região da grande São Paulo. Desde sempre teve dificuldade para se adaptar a vida de trabalhador assalariado e às condições que essa lhe ofereciam.

Essa ampla experiência de vida permitiu que ele identificasse na população o problema da identidade nacional. Seus sambas incorporaram a fala popular do povo pobre e do morro, contando suas histórias. Adoniran escrevia conforme o povo falava, pois assim acreditava conseguir atingir verdadeiramente o coração da população.

As músicas de Adoniran fizeram sucesso não somente pelo fato da representação da fala popular, mas também por denunciar as condições precárias de vivência da população de baixa renda. São Paulo da primeira metade do século XX enfrentava sérios problemas com enchentes e ocupações irregulares e também enfrentava uma mudança drástica na sua arquitetura e nas regras sociais.

Ninguém melhor que Adoniran conseguiu captar as reformas da alma de concreto dessa grande cidade que é São Paulo.

Adoniran retratou a luta das mulheres na metrópole. As antigas “Amélias” que agora eram mulheres com sucesso profissional procuravam se desfazer do típico homem sambista, o famoso Malandro.

Um dos temas abordados na letra dos sambas de Adoniran é sobre a vida dos imigrantes que habitaram a região central de São Paulo. A mistura de povos e culturas – herança da política de imigração brasileira – na mesma região da cidade provocava um choque entre diferentes costumes. Cada cultura foi taxada por ter certo comportamento, ou por ocupar certo ramo comercial, e essa herança se estende até os dias de hoje.

Adoniran e Lévi-Strauss tiveram mais em comum do que apenas compartilhar de um mesmo ambiente em uma mesma época. Eles representaram sua cidade do coração de forma artística e lisonjeira. E eu, a autora que aqui vos escreve, paulistana de coração desde nascimento – agora erradicada no Rio de Janeiro – tomo a liberdade de emprestar do antropólogo Lévi-Strauss o nome de seu livro, que representa perfeitamente meu sentimento nesse momento: saudades de São Paulo.

by Francielle Chies

Referências

LÉVI-STRAUSS, C. Saudades de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras,

1996.

LÉVI-STRAUSS, C. Avenida São João (foto). São Paulo: IMS, 1937.

BARBOSA, Adoniran. Letra de músicas. Disponível em: < http://letras.mus.br/adoniran-barbosa/>.  Data de acesso: 20 de abril de 2013.

BARBOSA, Adoniran. Por toda minha vida. Rio de Janeiro: Rede Globo, 28/10/2010. Disponível em: < http://www.youtube.com/watch?v=uj6l2JYOPOs>. Data de acesso: 20 de abril de 2013.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *